Cultura

A dona da palavra cristalina

Olívio Tavares de Araújo por Olívio Tavares de Araújo

É claro que fazer poesia nunca foi um privilégio masculino. Se ao longo da história surgiram menos poetas-mulheres (aconselho não usar o termo poetisa – diga a poeta Fulana), é porque as mulheres sempre tiveram menos oportunidades. Imagine as que, na Idade Média, em vez de cuidar humildemente da casa e de seu amo e senhor, inventassem escrever versos. Perigava irem parar na fogueira.

Felizmente os tempos mudaram. Do século 19 para cá as poetas são muitas. Nossa língua pode-se orgulhar da portuguesa Florbela Espanca (1894-1930), e, no Brasil, de Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Cora Coralina e Adélia Prado – as mais ilustres. A poesia de Cecília (1901-1964) possui uma qualidade formal e uma beleza esplendorosas. Em certo sentido é até difícil, pelo uso tão preciso e pela elegância cristalina das palavras; não é coloquial. Vamos a um de seus mais famosos (e mais simples) poemas. 

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me disfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada. 

Olívio Tavares de Araújo

Olívio Tavares de Araújo

Escritor e Curador de Arte
Reside e trabalha em São Paulo desde a década de 1970. Desenvolveu sua atividade nas páginas de vários jornais de Belo Horizonte, Brasília e São Paulo, e nas revistas Veja e Isto É. É autor de 14 livros e curador de dezenas de exposições. Também a partir de 1970, como diretor e montador, já realizou mais de cinquenta filmes de curta e média-metragem, a maioria sobre arte, vários deles premiados no Brasil e no exterior. Sua presença tem sido instrumental na formatação da cena artística brasileira durante mais de trinta anos. Olívio foi comissário do Brasil à 27ª Bienal de Veneza e membro de diversos conselhos e entidades, como as Comissões de Arte da Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna do Rio e do Museu de Arte Moderna de São Paulo. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Recebeu duas vezes o Prêmio Gonzaga Duque da Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1979 pelos primeiros filmes sobre arte, e em 1998 pelo melhor conjunto de trabalhos.

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