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Em busca da identidade cultural brasileira

Olívio Tavares de Araújo por Olívio Tavares de Araújo
Vista da exposição das obras de Rubem Valentim no MASP. Foto: Paula Sanches

Até se tornarem ícones inabaláveis – como Portinari, Tarsila, Volpi –, mesmo grandes artistas têm fases de menor visibilidade. O baiano Rubem Valentim (1922-1991), que na década de 1970 e 80 chegava a ser citado ao lado de Tarsila e Volpi, andou sumido. Neste instante, está merecidamente voltando à tona numa ampla e bonita exposição no Museu de Arte de São Paulo. 

Nos anos 1970 e 80, a ditadura e outros motivos fizeram com que muitos artistas brasileiros quisessem discutir em suas obras a questão da nacionalidade. Realizar uma arte que, de alguma maneira, tivesse a marca e reafirmasse a força de um país machucado. Houve arte de protesto, às vezes direta, às vezes através de metáforas (por exemplo, as bananas de Antônio Henrique Amaral, suspensas por cordas e trinchadas por garfos e facas). E havia também apenas a reivindicação de uma identidade cultural, através de imagens e elementos simbólicos que a evocassem. (Digo apenas mas não quero diminuir sua importância). Tudo junto caracterizou um momento estético e político.

A nacionalidade na arte é uma questão acessória; não constitui nem prerrequisito nem impedimento para a qualidade. Pode estar presente ou não. Está presente no caso de Rubem Valentim, que partiu das formas e signos abstratos nos altares e instrumentos de culto do candomblé para criar um vocabulário próprio. Sua pintura e escultura, apesar de rigorosamente geométricas, acabam adquirindo uma atmosfera algo religiosa, uma “impregnação mística”, como ele mesmo dizia. Valentim era citado junto com Tarsila e Volpi porque a presença do Brasil nas obras dos três não é só temática (como, por exemplo, nas mulatas de Di Cavalcanti). Representa uma incorporação no nível da linguagem. O colorido pau-brasil, em Tarsila, a bandeirinha, em Volpi, os rituais afro-brasileiros, em Valentim, são forças determinantes na criação do estilo de cada um. 

Links relacionados: Pinacoteca de São Paulo e “Vozes da Diáspora“.

 

Olívio Tavares de Araújo

Olívio Tavares de Araújo

Escritor e Curador de Arte
Reside e trabalha em São Paulo desde a década de 1970. Desenvolveu sua atividade nas páginas de vários jornais de Belo Horizonte, Brasília e São Paulo, e nas revistas Veja e Isto É. É autor de 14 livros e curador de dezenas de exposições. Também a partir de 1970, como diretor e montador, já realizou mais de cinquenta filmes de curta e média-metragem, a maioria sobre arte, vários deles premiados no Brasil e no exterior. Sua presença tem sido instrumental na formatação da cena artística brasileira durante mais de trinta anos. Olívio foi comissário do Brasil à 27ª Bienal de Veneza e membro de diversos conselhos e entidades, como as Comissões de Arte da Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna do Rio e do Museu de Arte Moderna de São Paulo. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Recebeu duas vezes o Prêmio Gonzaga Duque da Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1979 pelos primeiros filmes sobre arte, e em 1998 pelo melhor conjunto de trabalhos.

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