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Não somos masoquistas, e no entanto…

Olívio Tavares de Araújo por Olívio Tavares de Araújo
Obra de Pedro Moraleida: corpos despedaçados como metáfora do desespero

Não temos a menor ideia de quantos milhares de rapazes brasileiros de 22 anos estão neste momento infelizes ao ponto do desespero e procuram algum (falso) alívio usando droga. Muito menos sabemos quantos deles chegarão ao extremo de matar-se. O que podemos ter certeza é que, nem por isso, seus desenhos e rabiscos entrarão um dia num museu. É necessário ir além do sofrimento.

Questões assim me ocorrem diante de uma exposição como a do mineiro Pedro Moraleida, nascido em 1977, suicida em 1999, a qual se encontra no Instituto Tomie Ohtake. Como são complexos, estranhos, misteriosos os caminhos da criação! O sofrimento não é condição obrigatória para que a obra de arte nasça (o grande Volpi visivelmente não sofria), mas em certos casos o sofrimento integra a obra e até faz parte da qualidade. A arte deste jovem Pedro Moraleida é sem dúvida penosa, tanto em sua origem quanto em sua contemplação. Suas figuras e formas distorcidas, os traços perturbados, as cores intensas, os textos um pouco delirantes que inscreve, tudo nela é difícil e angustiante. Enquanto expressão pessoal, dá vazão à dor mais intensa, à agressividade contra o mundo e o homem (inclusive, é claro, contra si mesmo), contra a religião institucionalizada, inclui uma forte questão sexual, solta gritos radicais, urgentes, pedidos de socorro altíssimos. Não há dúvida de que se trata de grande arte – mas está machucada e machuca. É este o maior paradoxo da arte. No nível do que diz, nos temas, pode doer – pensem em qualquer crucifixão sangrenta –, mas pela maneira de dizê-lo, pela linguagem, o resultado encerra sempre um tipo de prazer. Nenhum de nós é masoquista e no entanto vamos ver e gostamos de uma exposição como esta. Trata-se da beleza terrível, tão diferente da habitual mas beleza do mesmo jeito. No plano humano, seria tão bom se Pedro Moraleida estivesse aqui com sua família, mas já que não pôde ser assim, pelo menos sua obra o conserva vivo. 

E para terminar, parabéns ao Tomie Ohtake, que neste momento tem duas das melhores exposições da cidade; a outra é a de Karin Lambrecht.

Serviço
Pedro Moraleida – Canção do Sangue Fervente
Instituto Tomie Otake
Av. Brigadeiro Faria Lima, 201, Pinheiros, São Paulo
Terça a domingo das 11h às 20h
Até 17/02

Olívio Tavares de Araújo

Olívio Tavares de Araújo

Escritor e Curador de Arte
Reside e trabalha em São Paulo desde a década de 1970. Desenvolveu sua atividade nas páginas de vários jornais de Belo Horizonte, Brasília e São Paulo, e nas revistas Veja e Isto É. É autor de 14 livros e curador de dezenas de exposições. Também a partir de 1970, como diretor e montador, já realizou mais de cinquenta filmes de curta e média-metragem, a maioria sobre arte, vários deles premiados no Brasil e no exterior. Sua presença tem sido instrumental na formatação da cena artística brasileira durante mais de trinta anos. Olívio foi comissário do Brasil à 27ª Bienal de Veneza e membro de diversos conselhos e entidades, como as Comissões de Arte da Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna do Rio e do Museu de Arte Moderna de São Paulo. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Recebeu duas vezes o Prêmio Gonzaga Duque da Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1979 pelos primeiros filmes sobre arte, e em 1998 pelo melhor conjunto de trabalhos.

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