Cultura

Pode, sim, aparecer mijo na poesia

Olívio Tavares de Araújo por Olívio Tavares de Araújo
Adélia Prado em seu mundo simples, no qual a poesia é convidada permanente

Continuemos nossas expedições pela poesia. Hoje, de novo uma mulher, Adélia Prado, nascida em 1935 em Divinópolis, Minas Gerais. Adélia não poderia ser mais diferente de Cecília Meireles, de quem falamos no último encontro. Cecília é requintadíssima e nada coloquial. Adélia é natural, fala a linguagem comum, parte de um mundo simples, demonstrando que a maior poesia pode-se esconder no menor detalhe do dia a dia. Era uma professorinha primária do interior, modestamente casada com um funcionário do Banco do Brasil, quando, só aos 41 anos, um poema seu caiu nas mãos de Carlos Drummond de Andrade. Descobriu-se então uma poeta (não poetisa) espantosa, da maior qualidade, capaz de tratar também de assuntos complexos sem ficar pretensiosa. Deus, o destino do homem e a sexualidade (sim) estão entre seus temas. Em 1987, Fernanda Montenegro montou o espetáculo Dona Doida, com base em textos de Adélia.    

Clareira

Adélia Prado

Seria tão bom, como já foi,
as comadres se visitarem nos domingos.
Os compadres fiquem na sala, cordiosos,
pitando e rapando a goela. Os meninos,
farejando e mijando com os cachorros. 
Houve esta vida ou eu inventei?
Eu gosto de metafísica, só para depois
pegar meu bastidor e bordar ponto de cruz,
falar as falas certas: a de Lurdes casou,
a das Dores se forma, a vaca fez, aconteceu,
as santas missões vêm aí, vigiai e orai
que a vida é breve.
Agora que o destino do mundo pende do meu palpite,
quero um casal de compadres, molécula de sanidade,
pra eu sobreviver.

Olívio Tavares de Araújo

Olívio Tavares de Araújo

Escritor e Curador de Arte
Reside e trabalha em São Paulo desde a década de 1970. Desenvolveu sua atividade nas páginas de vários jornais de Belo Horizonte, Brasília e São Paulo, e nas revistas Veja e Isto É. É autor de 14 livros e curador de dezenas de exposições. Também a partir de 1970, como diretor e montador, já realizou mais de cinquenta filmes de curta e média-metragem, a maioria sobre arte, vários deles premiados no Brasil e no exterior. Sua presença tem sido instrumental na formatação da cena artística brasileira durante mais de trinta anos. Olívio foi comissário do Brasil à 27ª Bienal de Veneza e membro de diversos conselhos e entidades, como as Comissões de Arte da Bienal de São Paulo, do Museu de Arte Moderna do Rio e do Museu de Arte Moderna de São Paulo. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte e da Associação Internacional de Críticos de Arte. Recebeu duas vezes o Prêmio Gonzaga Duque da Associação Brasileira de Críticos de Arte, em 1979 pelos primeiros filmes sobre arte, e em 1998 pelo melhor conjunto de trabalhos.

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